Manaus

Quarta-feira, 21 de outubro de 2026

21/10/2026 · 29°C

29°C - Nublado

Tá Visto!

Cara-De-Barro (2026): um monstro à altura de Gotham? - Crítica

Por Rennan Gardini 21/10/2026 15:57 - há 2 horas
Cara-De-Barro (2026): um monstro à altura de Gotham? - Crítica

Existe uma magia em adaptar o universo do Batman para as telonas. Cara-De-Barro é mais uma dessas adaptações e aposta em um body horror competente para dar profundidade à primeira visão da Gotham City do universo compartilhado liderado por James Gunn. É um filme que entende que, apesar de fazer parte de um universo maior, precisa funcionar por si só dentro de suas próprias propostas, ainda que tenha seus defeitos.

Matt Hagen (Tom Rhys Harries) é um ator em ascensão que vem de um bairro pobre de Gotham City e tem a carreira destruída após ser brutalmente desfigurado por um criminoso. Desesperado para recuperar sua aparência, ele se submete a um tratamento experimental que restaura seu rosto, mas provoca consequências imprevisíveis. À medida que perde o controle sobre o próprio corpo e a própria mente, Matt embarca em uma violenta jornada de vingança que o transforma no monstro conhecido como Cara-De-Barro.

Midia da materia

Cara-De-Barro segue muitas das convenções de uma história de origem e, mesmo acompanhando um personagem não tão popular da galeria de vilões do Batman, consegue prender a atenção do espectador pelo carisma do protagonista, pelo bom roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini e, principalmente, pela excelente representação da clássica cidade do Homem-Morcego.

Essa Gotham é suja, perigosa e hostil até mesmo para seus habitantes. A corrupção policial é notável, e a violência urbana funciona quase como um personagem oculto do filme. O diretor James Watkins parece buscar inspiração em representações recentes da cidade, como as de Batman (2022) e Coringa (2019). É um trabalho que não revoluciona a ideia do que Gotham pode ser, mas consegue fazer com que a cidade pareça viva para o espectador.

No centro disso tudo, temos uma performance inspirada de Tom Rhys Harries, que consegue nos fazer empatizar com a situação trágica em que Matt Hagen se encontra e criar uma aura de tensão em torno do personagem. Com o passar do filme, Harries confere emoção e ameaça a um homem cuja mente está em decadência. Harries é a melhor coisa do filme, de longe!

Midia da materia

Naomie Ackie também se esforça para dar personalidade a uma personagem que poderia ser reduzida a um mero dispositivo de roteiro ou a um simples interesse romântico. A atriz, porém, traz nuances suficientes à Dra. Caitlyn Corr para dar tons de cinza a um romance com ares de O Fantasma da Ópera.

Como terror, Cara-De-Barro se sobressai no body horror, com cenas angustiantes de Hagen lidando com as novas condições do próprio corpo. Como filme de quadrinhos, porém, ele se apequena um pouco, com um conflito central recheado de antagonistas subdesenvolvidos. O filme é muito mais interessante quando explora as consequências do tratamento para o personagem do que quando se concentra na trama de vingança e em seus mafiosos genéricos, que parecem saídos diretamente de um episódio antigo de Os Trapalhões. Além de não serem ameaçadores o suficiente, eles pouco acrescentam à trama, servindo basicamente como motivação para o protagonista depois do choque inicial da deformação de Hagen. Nesse aspecto, a série Pinguim (2024), da HBO, foi muito mais feliz ao retratar o submundo criminal de Gotham, com suas disputas de poder e personagens que parecem realmente capazes de controlar a cidade por baixo dos panos.

Ainda assim, a presença do protagonista eleva essa parte da trama e contribui para um desfecho satisfatório para o conflito.

Midia da materia

Apesar de pesar a mão no uso da computação gráfica no ato final, Cara-De-Barro não deixa de impressionar pelo trabalho de efeitos visuais, sobretudo nas sequências de body horror, que utilizam efeitos práticos, e nas diversas referências a obras clássicas, como O Enigma de Outro Mundo, A Mosca, O Iluminado e O Poderoso Chefão: Parte II, cuja traição de Fredo a Michael Corleone é referenciada em uma das sequências do filme. As cenas de terror corporal são nojentas e incômodas, transmitindo com eficiência a deterioração física e mental do protagonista.

Midia da materia

Cara-De-Barro é uma excelente adição ao DCU, não por seguir a cartilha dos filmes de quadrinhos, mas por ousar ter mais personalidade do que eles. Além de construir uma ótima história de origem para o vilão, o filme não tem vergonha de abraçar seu lado terror e encontra em Tom Rhys Harries uma atuação ótima, que ajuda a sustentar uma narrativa tensa, ainda que previsível em certos aspectos.

Confira o trailer legendado do filme