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Resident Evil (2026): Zach Cregger traduz a experiência dos jogos para o cinema - Crítica

Reboot da franquia aposta em uma história original para reproduzir nas telas a atmosfera, a tensão e a sensação de estar diante de um dos populares jogos de survival horror.

Por Rennan Gardini 18/09/2026 14:16 - há 14 horas Atualizado em 18/09/2026 14:24 - há 14 horas
Resident Evil (2026): Zach Cregger traduz a experiência dos jogos para o cinema - Crítica

É comum nos jogos de Resident Evil, ou em qualquer outro jogo de terror inspirado pela franquia, existirem textos, cartas ou áudios espalhados pelo cenário. Esses áudios, normalmente, são de pessoas mortas que viveram situações horríveis durante os acontecimentos do jogo em questão e servem para aprofundar o universo de Resident Evil e dar mais urgência à história.

O Resident Evil de 2026 poderia muito bem ser um desses áudios: uma história contida, adjacente ao universo principal da franquia e que serve para aprofundá-la e até trazer humanidade para esse universo.

Midia da materia

O protagonista, Bryan, interpretado por Austin Abrams, é um entregador de suprimentos médicos que precisa enfrentar uma noite de caos ao aceitar uma entrega urgente para Raccoon City, a icônica cidade que serviu de ambientação para vários jogos da série.

Zach Cregger vem sendo aclamado como uma das grandes vozes do terror atual. Seus filmes anteriores, Barbarian (2019) e Weapons (2025), foram aclamados pelo público e pela crítica, trazendo visões originais e tematicamente ricas para temas batidos do terror, além de adicionarem um humor ácido e sarcástico. Resident Evil foi um caminho natural para o cineasta, que assumiu a difícil tarefa de contar uma história que vale a pena dentro do reboot de uma franquia cinematográfica gigante que foi muito maltratada.

Esse novo filme traz a brutalidade e a nojeira presentes em seus dois projetos anteriores e adiciona ainda mais comédia no processo. O Resident Evil de Zach Cregger é curto e focado apenas em um trabalhador vivendo a pior noite de sua vida, e é essa simplicidade que faz esse filme funcionar. Ele não precisa esfregar referências na cara do público o tempo todo: cria um protagonista carismático e faz o espectador torcer por esse personagem, adicionando camadas de humanidade com o conflito interno que Bryan está vivendo naquele momento. A câmera intrusiva que Cregger utilizou em seus dois outros filmes também aparece aqui, criando momentos de tensão crescente enquanto vemos o perigo se aproximar do protagonista. Acima de qualquer coisa, é um bom filme de terror!

Midia da materia

Nas entrevistas promocionais do filme, Cregger parecia o tempo todo querer justificar sua história para os fãs mais radicais que esperavam uma recriação dos elementos mais populares dos jogos, deixando claro que se tratava de uma história nova, que respeitaria o legado dos jogos e a atmosfera dos populares survival horror. Aqui é onde talvez resida o ponto que pode dividir o público.

Ao contrário das cópias sem personalidade de Matrix que Paul W. S. Anderson entregou nos anos 2000, estreladas por Milla Jovovich em um papel que sequer existe nos jogos, e da metralhadora de referências sem espaço para uma boa história que foi Bem-Vindo a Raccoon City (2021), Cregger se preocupa em construir um bom filme para só então recheá-lo de referências pontuais e de uma atmosfera muito semelhante à encontrada nos jogos do gênero.

É, sem dúvida, a adaptação de videogame que mais se preocupa com a sensação de se estar jogando uma entrada da franquia. Além da ambientação e da presença de elementos muito conhecidos da história, a câmera intrusiva e a estrutura do filme evocam a sensação de muitos jogadores ao se depararem com cadeados impossíveis de abrir sem uma chave, a angústia dos confrontos com os diferentes monstros da franquia e até mesmo os populares "stalkers" que perseguem o jogador durante o jogo inteiro, como Nemesis e Mr. X. Esse trabalho é o que faz de Resident Evil uma boa adaptação: o fato de se estar adaptando a sensação de jogar um Resident Evil enquanto conta uma história original, ainda que enxuta!

No centro disso tudo, temos uma performance extremamente magnética de Austin Abrams, que já tinha arrebentado em Weapons e agora dá vida a Bryan, um personagem muito humano, que toma decisões ruins, entra em desespero e não tem as mesmas habilidades que os protagonistas já conhecidos dos jogos. O carisma de Abrams carrega boa parte do filme e traz humanidade e até profundidade a uma narrativa direta. Acompanhamos Bryan durante todos os 90 minutos do filme e vemos todo o caos de Raccoon City através de seus olhos e ouvidos. Ele é quase um avatar do espectador, um avatar cheio de personalidade e com reações que soam genuínas e engraçadas.

Midia da materia

Aliás, a comédia está muito presente nesse filme, cortesia do background de Zach Cregger com o gênero antes de se arriscar no terror, e serve como uma assinatura do trabalho do diretor, que já havia adicionado muitos elementos de comédia em Weapons e Barbarian. Apesar disso, as risadas nunca tomam o espaço do horror. As cenas de suspense do filme são muito bem feitas, o horror corporal está bem presente aqui, com momentos que chegam a ser extremamente nojentos e difíceis de assistir. O filme mescla efeitos práticos e digitais sem exagerar muito em nenhum dos lados; é tudo bem feito e convincente! Terror e comédia são dois lados da mesma moeda, e Cregger passa o filme todo explorando os dois elementos com bastante sucesso. Um momento de tensão quebrado por uma piadinha esperta e realmente engraçada.

Por falar em tensão, a trilha sonora composta por Hays e Ryan Holladay, que também trabalharam em Weapons, contribui bastante para a construção das cenas de suspense e encorpa as muitas cenas de ação inventiva da trama.

O roteiro, talvez por seguir demais a estrutura de videogame, acaba nos entregando um momento em que a exposição narrativa é exagerada, com um personagem explicando demais como tudo chegou àquele ponto. Uma conveniência narrativa que soa um pouco deslocada do momento em que o filme está. Vale dizer que o final do filme é sensacional, mas pode causar certa divisão entre os espectadores.

Resident Evil, de Zach Cregger, talvez não seja a adaptação mais fiel dos populares jogos, mas com certeza é o melhor filme que a franquia já teve. Curto, simples e extremamente divertido, é o filme que os fãs mereciam depois de tantos desastres cinematográficos sob o guarda-chuva da Umbrella Corporation.

Confira o trailer legendado do filme