Ao adaptar A Odisseia, um dos dois grandes poemas épicos da Grécia Antiga, Christopher Nolan aplica seu cinema maximalista a uma das fundações da narrativa ocidental. O texto atribuído a Homero se transforma, nas mãos do diretor, em um épico cinematográfico traduzido para a linguagem grandiosa e contemporânea de Hollywood.
A história segue Odisseu (Matt Damon), rei de Ítaca, e sua jornada de volta para casa após a guerra contra Tróia. Enquanto passa por provações em seu caminho, acompanhamos sua esposa Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland) lidando com sua ausência e a constante pressão dos pretendentes ao trono de Ítaca.
Tematicamente, A Odisseia pode ser encarada como uma continuação espiritual de Oppenheimer (2023). A culpa de Odisseu, estrategista responsável pelo Cavalo de Tróia, estabelece uma relação direta com o remorso de Oppenheimer após a criação da bomba atômica. Mas, enquanto o filme anterior reserva seu terceiro ato para desenvolver a culpa de seu protagonista, toda a jornada do rei de Ítaca se torna um reflexo do preço que a violência cobra de sua humanidade.
O retorno para casa é a prioridade de Odisseu e de seus homens, fazendo com que cada uma de suas decisões controversas pese ainda mais sobre a narrativa e o público. Cada atraso é sentido, cada perda é dolorida, cada escolha ruim é questionada. O protagonista se revela um herói falho e profundamente humano. Sua relação com a Atena interpretada por Zendaya talvez seja o maior indício disso, mais do que uma divindade, ela funciona como um espelho das contradições de Odisseu e daquilo que ele se recusa a enxergar. No fim das contas, o maior responsável pelo atraso de seu retorno é o próprio Odisseu.
No roteiro, Nolan ainda demonstra certa dificuldade na construção de personagens femininas, um problema já amplamente discutido por quem acompanha sua filmografia. Aqui, no entanto, parece ao menos seguir em um caminho mais interessante. As performances conseguem aprofundar personagens que recebem pouco texto, especialmente quando o roteiro parece incapaz de oferecer a elas a mesma complexidade dedicada ao protagonista. Na direção, porém, não existem dúvidas sobre a grandiosidade do trabalho realizado. Tudo em A Odisseia é gigante. A escala da produção é absurda, e cada encontro com monstros ou divindades é encenado com um compromisso com o realismo que chega a causar certo estranhamento diante do tom fantástico do material original, mas sem perder o tom que faz a mitologia grega especial.
Nolan abusa dos efeitos práticos e, ao lado de uma excelente equipe de design de produção, entrega uma versão da Idade do Bronze como nunca antes vista. Hoyte Van Hoytema utiliza a tela como sua própria pintura, reafirmando por que é um dos melhores diretores de fotografia em atividade. O mesmo pode ser dito da trilha sonora de Ludwig Göransson, que encara o desafio de construir a música sem o auxílio de uma orquestra, recorrendo apenas a instrumentos e processos que dialogam com o período retratado no filme. O diretor coloca cada centavo de seu orçamento na tela, transformando A Odisseia em um espetáculo sonoro e visual.
Falando em espetáculo, o elenco estrelado é responsável por grande parte dele. Matt Damon dá o tom intimista ao roteiro com seu Odisseu, carregando a história desde o momento em que seu rosto é revelado até o emocionante terceiro ato. Anne Hathaway entrega emoção, retidão, sabedoria e força como Penélope, funcionando ao mesmo tempo como alvo do desejo dos pretendentes, figura materna e principal motivação para o retorno de Odisseu. Robert Pattinson brilha mais uma vez como Antínoo, tanto em sua confiança excessiva quanto em sua covardia. Mas as grandes surpresas do elenco são John Leguizamo como Eumeu, Elliot Page como Sínon e a incrível Samantha Morton como Circe que, mesmo com pouco tempo de tela, é responsável por uma das melhores cenas do filme.
Mas a quantidade de nomes grandes no elenco também trabalha contra o produto final. Jon Bernthal, Lupita Nyong'o e Benny Safdie têm pouco com o que trabalhar, enquanto a Calipso de Charlize Theron é tão subaproveitada que acaba sendo decepcionante. Tom Holland entrega momentos emocionantes como Telêmaco, mas parece não encontrar a mesma força quando divide a cena com performances mais intensas que a sua, especialmente nos momentos em que contracena com Robert Pattinson.
Entre a caverna do Ciclope, a ilha de Circe e a viagem da tripulação de Odisseu ao Hades, é realmente difícil escolher um momento de maior destaque no filme. Cada passagem se torna memorável por motivos diferentes, seja pelos efeitos práticos, pela escala da produção ou pelo tom de terror que Nolan adota em algumas dessas cenas.
A Odisséia é um filme feito para se assistir em uma sala de cinema com a maior tela e o melhor som disponíveis. Ter sido gravado em IMAX 70mm torna a "experiência definitiva" do filme em algo pouco democrático, mas ele é bem feito o suficiente para não depender disso para impressionar o público.
É o tipo de experiência que lembra o que o cinema é capaz de fazer e dialoga diretamente com grandes clássicos como Lawrence da Arábia e Os Dez Mandamentos, ainda que sacrifique parte desse espírito épico em busca de uma linguagem mais moderna. É um filme muito bem feito, ainda que falho, assim como seu protagonista.