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Reportagem

Em entrevista, Ailton Krenak defende medicina indígena: “A floresta é a nossa farmácia viva”

Por Maurício Max 23/06/2026 14:59 - há 2 horas Atualizado em 23/06/2026 15:34 - há 1 hora
Em entrevista, Ailton Krenak defende medicina indígena: “A floresta é a nossa farmácia viva”
Confira a entrevista completa

Em entrevista à BandNews Difusora FM, o filósofo, escritor e ambientalista Ailton Krenak conversa com o jornalista Mauricio Max e reflete sobre o reconhecimento dos saberes ancestrais, os desafios enfrentados pelos povos originários no acesso à educação e à pesquisa, e a importância de integrar diferentes formas de cuidado à saúde. Krenak também destaca a relação entre saúde, território e meio ambiente, defendendo que a preservação dos conhecimentos tradicionais é fundamental para o bem-estar das comunidades e para enfrentar as crises do mundo contemporâneo.

Confira a entrevista completa

Confira a entrevista completa transcrita por Inteligência Artificial: 

Maurício:

Estou produzindo uma reportagem sobre os diálogos entre a ciência e a medicina indígena, abordando os conhecimentos ancestrais dos povos originários. O objetivo é investigar como estão surgindo bases científicas para que esses saberes sejam cada vez mais reconhecidos, aprimorados e integrados à sociedade. A reportagem começa pelo Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, em Manaus, o único da Amazônia voltado a esse tipo de atendimento. Gostaria de ouvir sua avaliação sobre a percepção da sociedade em relação à medicina indígena.

Ailton Krenak:

Essa é uma pauta muito relevante, sobretudo porque ainda existe muita desinformação sobre o tema. É importante lembrar que a indústria farmacêutica, em todo o mundo, se desenvolveu a partir de experiências acumuladas pelos povos originários ao longo de séculos.

No caso da Amazônia, é reconhecido que princípios ativos encontrados em plantas, fungos, cascas, folhas e até em alguns animais deram origem a medicamentos utilizados em todo o planeta. Esse conhecimento não atende apenas às comunidades indígenas; ele dialoga com a medicina ocidental, com o desenvolvimento de fármacos e continua contribuindo para pesquisas e descobertas.

Nas últimas décadas, as práticas terapêuticas indígenas passaram a receber maior reconhecimento. Hoje, instituições importantes de pesquisa, como a Fiocruz, possuem núcleos dedicados ao estudo dos conhecimentos tradicionais indígenas relacionados ao cuidado e à saúde. Esse movimento também tem sido fortalecido pelo trabalho desenvolvido pelo Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, liderado por João Paulo Barreto, cujas pesquisas e experiências vêm ganhando espaço em publicações acadêmicas e debates especializados.

Esse reconhecimento ajuda a superar visões reducionistas que tratavam esses conhecimentos apenas como curandeirismo ou uso popular de ervas. Trata-se de sistemas complexos de cuidado que mantiveram povos inteiros saudáveis por séculos. Antes da chegada da medicina ocidental aos territórios indígenas, eram essas práticas que garantiam o cuidado com gestantes, crianças, idosos e com a saúde coletiva das comunidades.

A ideia de que dependemos exclusivamente da indústria farmacêutica para sobreviver é relativamente recente. Nossos anciãos sempre nos lembraram que a floresta é uma farmácia viva. Há cerca de vinte anos participei de iniciativas que buscavam fortalecer justamente esse conceito, incentivando o cultivo e a preservação de plantas medicinais dentro das aldeias e a transmissão desses conhecimentos para as novas gerações.

Mas a medicina indígena vai além do uso de plantas. Ela envolve uma compreensão profunda da relação entre corpo, território, espiritualidade, bem-estar individual e coletivo. A própria noção de saúde coletiva, tão presente nos debates contemporâneos, tem forte inspiração nas práticas comunitárias desenvolvidas por povos indígenas em diversas regiões das Américas.

Estamos vivendo um momento favorável para o reconhecimento desses saberes. Ainda assim, é importante compreender que não existe uma única medicina indígena. As práticas do Alto Rio Negro, por exemplo, são diferentes das encontradas no Acre, em Roraima ou no Pará. São conhecimentos distintos, construídos em contextos específicos.

O que essas práticas têm em comum é uma visão integral do ser humano. Para muitos povos indígenas, a doença não começa apenas no corpo; ela pode surgir também em outras dimensões da existência, incluindo a espiritual. Essa compreensão amplia a forma de cuidar das pessoas e oferece perspectivas que não podem ser reduzidas à lógica da indústria farmacêutica.

João Paulo Barreto costuma destacar essa diferença ao comparar a medicina ocidental com a visão indígena de saúde. Para os povos indígenas, o corpo não está separado do mundo. Existe uma relação profunda entre a pessoa, o território, a natureza e o cosmos. É uma compreensão que ultrapassa a ideia de corpo como uma máquina isolada.

Essa complexidade ainda precisa ser mais estudada e reconhecida. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, havia uma expectativa de que comunidades indígenas isoladas seriam incapazes de enfrentar a crise sanitária. Em muitos casos, ocorreu o contrário: diversos povos mobilizaram seus próprios conhecimentos e estratégias de cuidado para reduzir os impactos da doença e proteger suas comunidades.

Há estudos e registros que mostram como esses saberes contribuíram para evitar a disseminação do vírus em várias regiões. Enquanto alguns sistemas urbanos entravam em colapso, muitas comunidades conseguiram organizar respostas próprias, baseadas em seus conhecimentos tradicionais de cuidado.


Maurício:

A ausência histórica de estudos científicos sobre os saberes indígenas pode estar relacionada à exclusão dos povos indígenas dos espaços de educação e pesquisa? Como o senhor avalia esse processo?

Ailton Krenak:

Até o final da década de 1980, os conhecimentos dos povos indígenas passavam por um processo de apagamento. Isso acontecia porque, ao mesmo tempo em que seus territórios eram ameaçados, sua presença também era desqualificada dentro da sociedade brasileira.

Foi a partir da Constituição de 1988 que começamos a construir uma relação diferente entre os povos indígenas e instituições como universidades, escolas e serviços de saúde. O acesso às universidades por indígenas é algo muito recente. Não faz sequer 30 anos que existem políticas e mecanismos que permitem e incentivam essa presença.

Quando olhamos para a medicina, o desafio é ainda maior. Historicamente, trata-se de um campo elitizado. Durante muito tempo, a figura do médico no Brasil foi associada ao homem branco. Não podemos esquecer que outros grupos também foram excluídos desses espaços. Os negros tiveram acesso muito limitado às universidades, e a participação das mulheres nesse campo também é relativamente recente.

Vivemos em uma sociedade marcada por desigualdades históricas. Por isso, imaginar que em pouco tempo teremos uma presença indígena amplamente consolidada em todas as áreas da medicina seria ignorar o peso desse processo de exclusão.

Mesmo quando um jovem indígena consegue ingressar em uma faculdade de medicina, ele costuma enfrentar obstáculos adicionais ao longo da formação. E esses desafios não terminam na graduação. Eles continuam na especialização, na pesquisa e na pós-graduação.

Ao mesmo tempo, é importante compreender o que significa formar um médico indígena. Não se trata apenas de alguém que concluiu um curso universitário. Muitos desses profissionais são herdeiros de tradições ancestrais de cuidado. Eles carregam conhecimentos transmitidos por pajés, mestres e lideranças de suas comunidades.

Por isso considero tão importante a trajetória de João Paulo Barreto. Ele não interrompeu sua formação ao concluir a graduação. Continuou pesquisando, escrevendo, produzindo conhecimento e dialogando com diferentes áreas da ciência. Seu trabalho pode servir de referência para iniciativas futuras, inclusive para a primeira universidade indígena anunciada pelo governo federal.

Experiências como a do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi demonstram que é possível construir espaços de pesquisa voltados aos saberes indígenas. Esses profissionais precisam publicar estudos, participar de congressos, desenvolver pesquisas e fortalecer redes de intercâmbio. Isso dará cada vez mais visibilidade e reconhecimento ao trabalho que já realizam.

Mas é importante lembrar que esse reconhecimento externo não é o que garante a continuidade desses conhecimentos. Os médicos indígenas continuarão exercendo seu papel porque são herdeiros de uma tradição muito antiga de cuidado.

João Paulo costuma observar que muitos especialistas indígenas evitavam até mesmo usar a palavra “medicina” para definir suas práticas. Preferiam falar em rezas, cuidados ou outros conhecimentos, justamente para não confundir seu trabalho com o conceito ocidental de medicina.

Essas práticas mantêm uma relação profunda entre corpo, território e modo de vida. Trata-se de uma compreensão de saúde muito mais ampla do que aquela obtida apenas por meio de exames clínicos.

Na medicina ocidental, muitas vezes a consulta é rápida e seguida por uma série de exames. Já um médico indígena procura primeiro conhecer a pessoa, entender sua história, seu contexto e suas relações com o ambiente onde vive.

Existe um respeito profundo pela individualidade de cada ser humano. Essa escuta faz parte do próprio processo de cuidado.

Por isso, não acredito que os povos indígenas devam buscar simplesmente se equiparar à medicina ocidental. O caminho é fortalecer seus próprios conhecimentos até que eles recebam o reconhecimento que merecem.

Entre os direitos mais importantes dos povos indígenas está justamente o de manter e desenvolver suas próprias práticas de saúde. Instituições como a SESAI e os Distritos Sanitários Especiais Indígenas desempenham um papel fundamental, mas não substituem os conhecimentos locais.

São esses saberes que sustentam as comunidades nos momentos de crise, sejam epidemias, pandemias ou os desafios cotidianos relacionados à alimentação, ao bem-estar e à vida coletiva.

A própria cultura é um elemento fundamental da saúde. Quando uma pessoa está desconectada de sua cultura, de sua língua e de seus modos de vida, isso também produz adoecimento.


Maurício:

Há uma diferença entre medicina indígena e assistência à saúde indígena. Como o senhor avalia o alcance da assistência pública aos indígenas aldeados, especialmente nas regiões mais remotas da Amazônia?

Ailton Krenak:

Se compararmos a Amazônia brasileira com outras regiões da América Latina, veremos que o Sistema Único de Saúde foi decisivo para ampliar o acesso à saúde em áreas remotas. Em muitos países, a saúde é predominantemente privada, o que dificulta ou inviabiliza a presença do Estado em territórios isolados.

No Brasil, o SUS criou as condições para que comunidades indígenas, ribeirinhas e populações da floresta recebessem atendimento público e gratuito. Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas estão inseridos nessa lógica e cumprem um papel importante ao levar assistência onde muitas vezes ninguém mais chegaria.

A experiência vivida durante a crise humanitária Yanomami demonstrou essa capacidade de mobilização. O Estado conseguiu organizar uma resposta emergencial para enfrentar uma situação extremamente grave. No entanto, os desafios continuam.

Hoje precisamos ampliar a discussão e pensar não apenas na saúde das pessoas, mas também na saúde dos territórios. Se os rios estão contaminados por mercúrio, se o solo está degradado pelo garimpo e outras atividades predatórias, como manter os conhecimentos tradicionais de cura que dependem de água limpa, plantas saudáveis e ecossistemas preservados?

A saúde indígena não pode ser pensada separadamente do território. Se o território adoece, as comunidades também adoecem.

As distâncias e as dificuldades logísticas são obstáculos reais, mas acredito que eles podem ser enfrentados por meio da articulação entre os conhecimentos tradicionais e os instrumentos da medicina ocidental. Os agentes de saúde, os mestres dos saberes tradicionais e os profissionais do SUS podem atuar de forma complementar.

Em muitas comunidades, essa integração já acontece. O agente de saúde é também membro daquela comunidade, conhece suas tradições e compartilha de sua realidade. Isso facilita a construção de um diálogo entre diferentes formas de cuidado.

Não podemos abrir mão da medicina ocidental, mas também não podemos abandonar os conhecimentos tradicionais e nos tornar totalmente dependentes da indústria farmacêutica ou dos grandes centros hospitalares. O desafio é construir uma prática colaborativa, capaz de respeitar e fortalecer ambos os sistemas.


Maurício:

Durante a pandemia, o senhor afirmou que estávamos vivendo a “febre do planeta”. Que mensagem gostaria de deixar para os tomadores de decisão sobre a importância da medicina indígena e sua contribuição para a cura do planeta?

Ailton Krenak:

Davi Yanomami utiliza uma expressão que considero muito significativa: “terra-planeta”. Ela nos lembra que não existem territórios isolados uns dos outros. Quando a Terra adoece, nós também adoecemos.

A crise climática, o avanço do garimpo, a contaminação por mercúrio e a destruição dos ecossistemas não são apenas problemas ambientais. São também problemas de saúde.

Quando falamos em tomadores de decisão, não estamos nos referindo apenas aos gestores da saúde. Essas decisões são tomadas por prefeitos, governadores, ministros, parlamentares e por todos aqueles que influenciam políticas públicas.

Muitas vezes existem boas intenções, mas as ações são planejadas sem ouvir as comunidades diretamente afetadas. Isso acaba produzindo mais dificuldades do que soluções.

Cada território possui suas próprias características, suas próprias necessidades e seus próprios conhecimentos. Não é possível aplicar a mesma solução para todas as realidades indígenas.

Durante muito tempo, acreditou-se que os principais problemas de saúde indígena estavam restritos a doenças como a malária. Hoje sabemos que os territórios enfrentam ameaças muito mais complexas: garimpo, contaminação ambiental, insegurança alimentar, perda de biodiversidade e mudanças climáticas.

Em algumas regiões, o garimpo comprometeu a pesca, a caça e a produção de alimentos. Em outras, provocou adoecimento coletivo. São situações que exigem respostas igualmente complexas.

Acredito que a SESAI e o Ministério da Saúde já compreendem a necessidade de ampliar essa visão. A saúde indígena não se resume ao fornecimento de medicamentos ou ao combate de epidemias. Ela envolve o cotidiano, a alimentação, a cultura, o território e a qualidade das relações comunitárias.

A principal mensagem que deixo é que os povos indígenas precisam ser ouvidos. Seus conhecimentos não são apenas parte do passado; eles podem contribuir para enfrentar desafios do presente e do futuro.

Quando cuidamos da floresta, dos rios e dos territórios, estamos cuidando também da saúde humana. A medicina indígena nos ensina justamente isso: não existe separação entre o bem-estar das pessoas e o bem-estar do mundo que habitamos.