A ex-presidente da Funai Joenia Wapichana (PT-RR) afirmou que o corte de R$ 72 milhões no orçamento do órgão compromete ações de demarcação e proteção territorial. “Vai atingir onde? Em demarcação e proteção territorial”, disse, em entrevista à jornalista Rosiene Carvalho, no programa Exclusiva, da BandNews Difusora. O programa foi gravado na semana passada, em Brasília, e foi ao ar nesta quinta, 22, na rádio. Sem citar o presidente Lula, Joenia Wapichana direcionou a crítica a outras figuras do governo federal ao dizer que a Funai precisava ter mantido orçamento condizente com suas funções.
“Precisa desse olhar dentro do governo, um olhar de que não é despesa, é investimento à proteção da vida dos povos indígenas”.
No balanço da gestão, Joenia descreve um processo de reconstrução institucional após o governo “anti-indígena, antiambiental e obscuro” de Jair Bolsonaro e os anos de esvaziamento que começa no Governo Temer. A ex-deputada federal apostou em concurso público, plano de carreira, reestruturação administrativa e ampliação da capacidade de resposta nos territórios. Destaca como marco a reserva inédita de 30% das vagas para indígenas e a ampliação das diretorias voltadas à demarcação, de três para cinco. Em números, aponta mais de 44 grupos de trabalho criados, mais de 150 em campo para demarcação de terras indígenas e 17 relatórios assinados por ela de identificação de territórios, 20 terras homologadas por Lula.
Joenia Wapichana estima que, em sua gestão e de Lula, foram cerca de 20 milhões de hectares, sendo cerca de 4 milhões de hectares no Amazonas. Soma-se a isso a edição de portarias para proteção de povos isolados e ações de desintrusão em áreas críticas, como a Terra Yanomami, além de operações em territórios Kayapó, Munduruku e no Alto Rio Guamá. “Foram trabalhos técnicos. Eu não queria ser presidente de vitrine”, resume.
Os desafios, porém, permanecem estruturais. Mesmo com concurso em 2024, há unidades sem servidores e fechadas, sobretudo na Amazônia. A dimensão territorial e a complexidade de áreas como a Terra Indígena Yanomami seguem exigindo presença contínua do Estado.
Joenia também aponta entraves legislativos e jurídicos, como os debates sobre o marco temporal e a Lei 14.701, além da necessidade de um plano de segurança territorial que envolva diferentes órgãos. Para ela, o maior risco hoje é a combinação entre restrição orçamentária e pressão política. “Será que vamos conseguir manter essas terras livres?”, questiona, ao defender que a proteção de territórios, inclusive de povos isolados, exige continuidade e recursos.
Na leitura sobre a disputa por mandatos na Amazônia, Joenia conecta política institucional à sobrevivência dos povos indígenas. Primeira mulher indígena a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados, com trajetória que passa pelo Supremo Tribunal Federal, onde atuou na demarcação da Raposa Serra do Sol, ela afirma que sua expectativa para 2026 é ampliação de mandatos indígenas.
“Em 2018, estava sozinha. Em 2022, já aumentou. Em 2027, nós vamos estar em maior número”, projeta. E encoraja: “As candidaturas indígenas não precisam ter esse medo todo. A gente tem potencial, sim”.
Essa trajetória ajuda a explicar como negociou política e poder dentro da própria Funai e como escolhe seus caminhos fora dela, como relatou na entrevista. Ao aceitar o convite de Luiz Inácio Lula da Silva, conta que levou à mesa lideranças indígenas e deixou claro que não assumiria sozinha: eram os povos indígenas no processo.
Reivindicou e conseguiu autonomia na indicação de cargos e garantiu que coordenações fossem ocupadas por nomes respaldados pelo movimento, recusando pressões políticas tradicionais, o que não foi possível na Sesai (Secretaria de Saúde Indígena).
A mesma lógica orienta sua decisão partidária. “Direito não se negocia”, afirma, ao explicar por que recusou convites de partidos da extrema direita, direita e centro com condições reais de quociente eleitoral para se eleger. Joenia optou pelo PT em Roraima, com a prioridade de apoiar e ampliar a base de Lula no estado. “Temos de reeleger um governo progressista”.
Com quociente eleitoral desafiador de 35 mil votos em Roraima, ela assume o risco como parte de um projeto maior: reeleger um presidente progressista, ser palanque de Lula em Roraima e manter a defesa dos direitos e espaços para indígenas nas mesas de decisão.
Em Roraima, 46% da extensão é território indígena, o que gera preconceito e ataque aos direitos indígenas. No segundo turno de 2022, o estado deu 76,08% dos votos válidos para Jair Bolsonaro.
“O presidente Lula teve 12% dos votos, eu quero esses 12% para ser a representante do presidente Lula no Congresso Nacional por Roraima.
Confira a entrevista: