Por Mauricio Max
Por que o saneamento básico é sempre o assunto menos debatido nas campanhas eleitorais? Viadutos e asfalto são sempre vistos. Já esgoto e tubulação ficam enterrados. Quando o eleitor chega na urna para votar, é bem difícil lembrar do que ele não vê. Será que os nossos candidatos ao governo do Amazonas enxergam o saneamento com a importância que ele precisa?
Faltam menos de 7 anos do prazo para a universalização do saneamento no país estabelecido pelo novo marco legal. O período parece longo, mas não para obras que precisam de investimento, tempo e articulação política para avançar. Acesso à água potável, coleta de esgoto e de lixo são direitos básicos que parecem até invisíveis aos olhos dos cidadãos, mas estão indiretamente ligados a setores importantes como saúde, infraestrutura, meio ambiente, educação e economia, logo precisam estar no debate eleitoral e no peso do voto.
Um levantamento indica que, de 2014 a 2024, nos últimos 10 anos, o Amazonas teve mais de 51.000 pessoas internadas e 380 mortes por doenças associadas à contaminação da água no sistema público de saúde. Além do impacto de perda humana, as internações custaram ao estado uma despesa de cerca de R$ 22 milhões de reais. Os dados estão no painel saneamento do Instituto Trata Brasil. Os números evidenciam a importância da participação das esferas municipal e estadual no setor.
Na análise do presidente da Comissão de Reforma Política e Combate à Corrupção Eleitoral da OAB do Amazonas, o cientista político Carlos Santiago, a pauta de saneamento é tratada como um tema secundário não só no Amazonas, mas em todo o país.
“Uma vez que é um investimento caríssimo de longo prazo e também não tem apelo eleitoral, não é aquilo que mobiliza a sociedade para votar no candidato. E mais: no Amazonas, por exemplo, saneamento básico é sinônimo de taxação, de cobranças exorbitantes de serviços.”
Além disso, Santiago também avalia que o assunto não é apontado por candidatos e é pouco cobrado por eleitores.
"O problema é que nós temos um povo que se nega a discutir a questão ambiental, o saneamento básico, que também acha que pode sair muito caro em tratamento de esgoto, e a classe política não procura uma discussão efetiva disso e acredita que perde mais votos, mais simpatia do que ganha."
Pensando em criar mais espaços de discussão política, o Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados, lançou um estudo que avalia o comprometimento de candidatos a governador com o saneamento. A pesquisa analisou os planos de governo com destaque para os serviços de abastecimento de água, esgotamento sanitário e drenagem. A metodologia classificou quatro níveis de avaliação: ausente, superficial, transversal e abrangente.
No Brasil, apenas 13 das 62 propostas avaliadas foram consideradas abrangentes, ou seja, atenderam requisitos sólidos de propostas para o saneamento. No Amazonas, dos três candidatos que figuram à frente nas pesquisas, apenas um apresentou um plano de governo considerado dentro dos padrões. Outros dois ficaram nos níveis superficial e transversal, pois não alcançaram os critérios estabelecidos pelo estudo.
A pesquisa optou por não revelar os nomes dos candidatos. Segundo a presidente executiva do Trata Brasil, Luana Pretto, o plano de governo precisa seguir eixos importantes para o saneamento.
"Quando a gente avalia então o estado do Amazonas, tem um dos candidatos que gabaritou em todos os eixos, ou seja, ele demonstrou compromisso com a regionalização, universalização, todos os temas que colocamos, inclusive colocando metas tangíveis em relação ao saneamento."
Considerando os dados gerais do país, a universalização foi a mais citada pelos candidatos, mas as metas concretas foram as menos abordadas.
"Os temas que foram abordados pelos candidatos no Brasil: nós temos a universalização sendo abordada por 82% dos candidatos, mas, por outro lado, apenas 20% dos candidatos se comprometeram com metas claras e objetivas. Então, grande parte dos candidatos fala da universalização, mas não se compromete de uma maneira clara e objetiva em relação às entregas."
Os pesquisadores do Instituto Trata Brasil concluíram que, apesar de o saneamento ter entrado na pauta eleitoral neste pleito, ainda houve pouco aprofundamento, como explica Luana Pretto.
"Então, de maneira geral, a gente vê que a pauta entrou no debate, mas ela ainda precisa ganhar maior profundidade em grande parte dos candidatos, o que faz com que nós, como cidadãos, tenhamos um papel fundamental nesse processo para que a gente entenda qual é o compromisso do nosso candidato em relação a esse tema, para que a gente possa garantir essa universalização dentro do prazo previsto, garantindo então saúde, qualidade de vida e um meio ambiente mais preservado para a população."
Os números do Trata Brasil no Amazonas indicam ainda um cenário que precisa avançar. Apenas 2 a cada 10 pessoas possuem acesso à coleta de esgoto adequada no estado. Tratando-se de acesso à água potável, o percentual é de 81,3%, abaixo da média nacional, que é de 84,1%. O ano-base corresponde a 2024. O estado possui 62 municípios: 15 deles têm o saneamento sob gestão da Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama), uma empresa de economia mista controlada pelo governo do estado, e as demais cidades têm a prefeitura como responsável pelo setor.
Já na capital, a concessionária Águas de Manaus, do grupo Aegea Saneamento, possui controle sobre o abastecimento e esgotamento sanitário. Dados atualizados da companhia no primeiro semestre de 2026 contabilizam que 99% da população tem cobertura de água potável e 42% de coleta de esgoto.
O Trata Brasil aponta que Manaus se destacou por ser a quarta capital que mais investiu em saneamento no Brasil entre 2020 e 2024, somando cerca de R$ 1,4 bilhão. Ainda assim, a capital continua entre as 20 piores do ranking do instituto, na 82ª posição. O diretor-presidente da Águas de Manaus, Pedro Augusto Freitas, afirma que o saneamento não tem lados partidários.
"O saneamento é uma pauta suprapartidária e é tão importante do ponto de vista de desenvolvimento humano e de desenvolvimento econômico de todo o nosso estado, da sociedade e do nosso país, que precisa avançar além de ideologia."
Um exemplo de alinhamento entre estado e município ocorreu em 2023, quando a Prefeitura de Manaus, o Governo do Amazonas e a Águas de Manaus assinaram um termo de cooperação técnica para a execução de obras de saneamento básico e a construção da estação de tratamento de esgoto da Raiz, em funcionamento desde 2025. Para Pedro Augusto, a articulação demonstrou a importância do trabalho conjunto.
"A gente tem duas esferas de governo mais a concessionária, e podendo até colocar um elemento adicional: parte do financiamento dos investimentos de esgoto vem do BNDES. Então a gente tem as instâncias federal, estadual, municipal e a concessionária privada, todas trabalhando juntas para avançar com o saneamento básico numa região importante de Manaus."
Um outro estudo do Trata Brasil indica, de modo prático, que R$ 1 investido na universalização do saneamento na Amazônia Legal pode gerar R$ 5,10 em retorno econômico e social. O estudo estima R$ 330 bilhões em benefícios líquidos para a região até 2040, em caso de acesso pleno ao saneamento.
Vale lembrar que o saneamento possui outros eixos por vezes esquecidos, entre eles o de coleta de lixo e drenagem. Grande parte dessas atribuições também passa pelo hábito popular. Para a mestre em ciências ambientais pela Universidade Federal do Amazonas, Iraneide Caldas, a educação ambiental também contribui para um saneamento desenvolvido:
"Ter uma educação ambiental já dentro das escolas, desde as séries iniciais, porque com isso, quando você vai iniciando desde criança, ela vai crescendo com aquela mentalidade do que pode ou não fazer com relação ao lixo, como fazer o descarte correto do seu lixo. Saber como deve ser o abastecimento de água, uma água de qualidade pra gente beber. Então, na minha opinião, a questão da educação ambiental muda bastante porque a pessoa já vai crescer com aquela consciência."
Outras formas incluem práticas domésticas e manejo correto de resíduos, hábitos de higiene e prevenção de doenças e, claro, o voto consciente.