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Cultura

Marca de moda inspirada na cultura periférica amazônida valoriza sustentabilidade para reduzir desperdício em Manaus

Por Maurício Max 06/06/2026 11:34 Atualizado em 06/06/2026 14:57
Marca de moda inspirada na cultura periférica amazônida valoriza sustentabilidade para reduzir desperdício em Manaus
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Favelas, rios e florestas formam o cenário de uma Amazônia urbana muitas vezes invisibilizada - menos para os empreendedores Saulo Oliveira e Yasmin Feitosa.

Apesar das vulnerabilidades dessa realidade, o casal enxergou uma nova perspectiva sobre o contexto e, em 2021, decidiu lançar uma marca totalmente inspirada nos elementos da cultura periférica amazônida.

Foto: Chamel Flores
Foto: Chamel Flores

A influência começa de cara com o nome do empreendimento: Cepecompany.

"A gente pegou o CP, da abreviação de Compensa, e colocou o CO, de Companhia, de Corporação, de Comunidade. Foi a ideia desde o início, retratar a periferia de uma forma mais urbana. A gente cansou de ver a Compensa nas pesquisas e só aparecer a criminalidade. Queríamos mostrar um outro lado da Compensa, e a gente trouxe isso para dentro do nome".

O bairro da Compensa, localizado na zona Oeste de Manaus, abriga diversas comunidades e fica às margens do rio Negro, afluente do rio Amazonas - o maior do mundo.

Outras localidades dividem espaço com áreas de vegetação nos limites territoriais da cidade ou ocupam áreas de maior concentração populacional. Com essas características, se formam as favelas amazônicas, entre rios, palafitas, becos, florestas e vielas.

Yasmin Feitosa, diretora administrativa da marca, conta que, no início, foi difícil encontrar referências que abordassem a diversidade urbana local, o que torna a Cepecompany ainda mais original.

"Com a Cepeco, são cinco anos de trabalho trazendo essa narrativa da periferia negra da Amazônia. A gente tinha poucas referências em moda streetwear aqui, pelo menos quando a gente começou. As que existiam não tratavam de narrativas que a gente acha que são tão importantes. A periferia é muito musical, aqui na rua de casa são cinco paredões em cada parte da rua, cada um tocando sua música, então a gente queria trazer realmente essas vivências que são inerentes a nós, a pessoas como a gente".

Palavras e gírias usadas exclusivamente em Manaus estampam as camisas da Cepecompany em um estilo urbano e identitário. Bodozal é um desses termos - e talvez o mais polêmico. A palavra foi popularizada de forma pejorativa para se referir a moradias em palafitas, com casas apoiadas sobre estacas às margens dos rios na zona urbana. O termo também faz referência a águas mais densas onde são encontrados peixes da espécie bodó.

"Na época do bodozau falaram pra gente que não deveríamos ter feito essa blusa, mas tentamos ver isso de outra forma. Falamos assim: é sempre sobre ressignificar essas coisas que eram vistas como marginalizadas ou feias, porque a CP foi inspirada na Compensa".

Foto: Divulgação Cepecompany
Foto: Divulgação Cepecompany

Tem até referência musical ao forró de galeroso, outra forte influência cultural para quem vive nas periferias de Manaus. O termo galeroso é usado para se referir a integrantes de galeras, um fenômeno que se intensificou entre os anos 1980 e 2000 nos bailes da capital.

No entanto, com o passar do tempo a palavra foi carregada de preconceitos para se referir a jovens em situação de vulnerabilidade. E esse foi o ponto de partida para a Cepecompany se apropriar desses elementos e construir uma identidade própria para o estilo urbano amazônida.

"A gente mudou de narrativa, percebemos que estávamos fazendo um streetwear muito abrangente, não era algo tão ligado à nossa região. E teve um dia que foi o ponto principal para a gente fazer um rebrand, a gente criou a peça forró de galeroso. Falamos que a partir desse dia todas as nossas peças iam realmente fazer alusão às vivências amazônicas".

A conexão cultural com a periferia se expande até o boi-bumbá, com camisas inspiradas nos bois Garantido e Caprichoso, em alusão ao Festival de Parintins.

Foto: Divulgação Cepecompany
Foto: Divulgação Cepecompany

O trabalho e o sucesso renderam à Cepecompany no ano passado um convite para desfilar e uma curadoria para 2026 no Amazon Poranga, um importante evento de moda autoral amazônica.

Uma das mais recentes linhas lançadas traz a estampa da Amazônia Brasileira sob as cores verde, amarelo e vermelho, usadas para representar as riquezas e diversidades da região.

Foto: Divulgação Cepecompany
Foto: Divulgação Cepecompany

Outro modelo foi produzido exclusivamente para a Copa do Mundo, mas com um toque manauara:

"A gente vai usar a Amazônia Brasileira como uma espécie de identificação, com os nossos símbolos, as nossas frases, as nossas cores. Lançamos uma camisa do Brasil agora que é inspirada na cúpula do Teatro Amazonas. Pegamos as cores, textura e símbolos da cúpula do teatro para colocar e inserir nessa nossa peça".

Imagem: Divulgação Cepecompany
Imagem: Divulgação Cepecompany

Outro aspecto que diferencia o empreendimento está na preocupação socioambiental e na durabilidade das roupas. A empresa brasileira S2F Partners, especializada em gestão de resíduos e economia circular, aponta que, em média, cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartadas anualmente pelos domicílios brasileiros.

Para Saulo e Yasmin, essa é uma parte fundamental do trabalho dedicado a escolher bons fornecedores que valorizem a costura e a sustentabilidade do tecido.

"Nossos fornecedores hoje, eles estão tão preocupados com isso. Estudamos o fornecedor que está com uma produção sustentável, (7:27) que vai trazer o algodão de forma sustentável, o algodão geralmente é nossa matéria principal. Pensamos principalmente na qualidade das peças, porque a durabilidade de uma peça também garante a sua sustentabilidade, sabe? Temos clientes que têm peças de 5 anos do primeiro lançamento, que ainda estão em um ótimo estado, intactas mesmo. Já que a gente vai ter que gastar esse recurso, que esse recurso seja utilizado o máximo de tempo de vida que ele precisar. E que sejam produtos que você não precise também de uma lavagem muito específica, de um cuidado muito específico, que são realmente roupas pra você usar ao máximo, garantimos isso. Isso é um dos nossos mantras na moda, inclsuive caminhar até em um contra-fluxo nesse sentido, porque muitas vezes são produzidas peças descartáveis. Peças que são feitas pro desfile. São peças que são bonitas, mas não foram feitas pra usar".

Além disso, o empreendimento realiza ensaios e contrata modelos de raízes periféricas para os trabalhos de lançamento da marca em locais como a própria comunidade da Compensa.

"Tem vários ensaios que são aqui na rua, com as pessoas olhando, participando do nosso vizinho gritando".

Para Yasmin, o ato de se empoderar reflete em um conceito de influenciar outras pessoas.

"A gente realmente sente que está vencendo porque as pessoas conseguem pesquisar o nome do nosso bairro e tem outra coisa no lugar do que seria uma manchete de violência. É muito importante ocupar esses lugares e servir também como influência para outras pessoas como a gente, que queiram empreender.".

Para os próximos passos, com vendas que variam, em média, de 300 a 500 unidades por modelo lançado, o casal sonha em abrir uma loja física. E o endereço, claro, já dá para imaginar.

"Lançar o ponto físico é realmente o nosso sonho principal, assim. E vai ser aqui na Compensa".

Esta reportagem contou com produção de Mauricio Max, edição de texto de Thaís Gama, edição de áudio de Rennan Gardini e produção de imagens para as redes sociais de Chamel Flores.