Invisíveis da saúde: pior crise sanitária expõe problemas nas condições de trabalho para enfermeiros

“Invisíveis da saúde”: pior crise sanitária expõe problemas nas condições de trabalho para enfermeiros

Nos últimos anos o Amazonas experimentou grandes desafios durante a pior crise sanitária de sua história. Na linha de frente, milhares de trabalhadores da saúde enfrentaram o medo e a angústia em meio a um sistema que se deteriorou nas duas primeiras ondas da Covid-19.

Apesar da enorme importância e no dia a dia salvarem centenas de vidas, muitas vezes a realidade de profissionais essenciais ao enfrentamento da crise de saúde permanece invisível.

Invisíveis da saúde: pior crise sanitária expõe problemas nas condições de trabalho para enfermeiros
Colchões acumulados em sala de descanso no Hospital 28 de Agosto.

Nem sempre reconhecidos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem convivem com a falta de estrutura para trabalhar, péssimas condições da refeição servida nas unidades hospitalares e situação inadequada ou ausência de um ambiente para descanso. (ouça)

O relato desse enfermeiro que trabalha há mais de cinco anos em dois dos principais hospitais públicos de Manaus, o Platão Araújo, na zona leste, e o Hospital Universitário Francisco Mendes, localizado na zona norte, revela os desafios do dia a dia.

Diferente dos médicos que possuem um local próprio, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem precisam improvisar para descansar, após jornadas de trabalho que podem ultrapassar até 12h.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde Privada e Pública no Amazonas (Sindpriv-AM), Graciete Mouzinho, diz que cenas como a de enfermeiros pegando colchões de leitos vazios, são comuns, dessa vez no maior hospital da capital, o 28 de Agosto. (ouça)

A análise da situação da força de trabalho em saúde no país tem sido feita em vários estudos.

Uma pesquisa inédita realizada pela Fiocruz concluiu que a pandemia aprofundou as desigualdades sobre o contingente de trabalhadores que exercem atividades de apoio na assistência e no cuidado.

Além da falta de condições apropriadas para descanso, a alimentação disponibilizada deixa a desejar.

Essas foram as conclusões do Conselho Regional de Enfermagem do estado (Coren-AM), após uma série de visitas a unidades hospitalares, como explica o presidente da entidade, Sandro André. (ouça)

Há mais de sete anos, um Projeto de Lei que trata das condições de repouso dos profissionais de Enfermagem nos plantões tramita no Congresso Nacional.

Alguns estados como Piauí, Distrito Federal, Alagoas e Rondônia estabeleceram legislações próprias que obrigam a existência de espaços adequados para enfermeiros.

No Amazonas, um PL parecido foi apresentado na Assembleia Legislativa do Estado. A proposta foi arquivada e recebeu parecer contrário da Comissão de Constituição e Justiça (CCJR).

No voto, o deputado delegado Pericles (PSL) alegou que a iniciativa teria que partir do Executivo Estadual, argumentando que se tratava de um projeto que influencia na estruturação e atribuições da Administração Pública.

Graciete Mouzinho afirma que o Sindicato da categoria lamenta que a medida tenha sido arquivada.(ouça)

A rádio BandNews Difusora FM questionou a Secretaria Estadual de Saúde (SES/AM) sobre os problemas relatados na reportagem.

Sobre a alimentação servida no Hospital e Pronto Socorro 28 de agosto, a pasta informou que o serviço é terceirizado, já foi revisto e está em processo licitatório, abrangendo várias unidades de saúde.

Quanto à área de descanso dos funcionários, a direção do hospital informou que há beliches suficientes para os trabalhadores, desde que seja respeitada a escala de descanso.

De acordo com a gestão, os colchões foram trocados recentemente, porém não há como impedir que os funcionários tragam seus próprios colchões.

Reportagem: Ricardo Chaves